Os últimos raios de sol desapareciam atrás das montanhas quando Samuel saiu da mata com o rosto abatido.
Doralice estava terminando de pastorear as ovelhas restantes para dentro de um celeiro subterrâneo.
- Nada dela? Disse para ele enquanto empurrava a porta de madeira rústica tampando a única entrada do celeiro.
- Procurei até o córrego e nada, a trilha acaba lá.
- Podemos procurar amanhã, já está ficando de noite.
- Não temos certeza de que ela vai estar por aí amanhã, não podemos perder um animal assim.
Doralice suspirou enquanto terminava de trancar a porta junto de Samuel, era fechada com duas tábuas de madeira atravessadas, impedindo que a mesma fosse aberta de dentro para fora.
- Não sei meu amor, é perigoso, ainda mais depois do riacho…
- Eu entendo, mas é preciso, justamente a única prenha é a que eu deixei escapar, não vou conseguir dormir pensando nisso.
Enquanto conversavam eles chegaram até a pequena cabana que haviam feito de lar. Suas paredes eram de toras de madeira medianas, com uma janela feita de vitral religioso azulado. A sua volta, algumas estacas de madeira afiadas estavam a postos nas quatro paredes.
- Vai ser rápido, eu prometo, já fiz isso antes, posso fazer de novo.
Doralice subiu até o batente da porta e pegou nas mãos calejadas de Samuel.
- Por favor, não posso te perder, tudo o que construímos aqui, o que é uma ovelha perante isso?
Samuel levou as mãos dela até seu rosto e as beijando disse:
- Não se trata só de uma ovelha, como irei proteger tudo isso se quando deixo nosso sustento ir para a morte, nada faço?
Doralice suspirou e colocou sua testa em contato com a dele.
- Tudo bem, prometa que não vai longe? Não quero você voltando aqui nu e sem memórias do que somos, não quero passar por tudo isso de novo.
Samuel assentiu, pegando sua besta, uma luminária de óleo velha e um punhal grande de aço bem cuidado.
- Já sabe né? Nada de fogo alto e nem sair para fora enquanto eu não chegar.
Desceu a baixada de campo pedregoso e aberto em direção a mata que se estendia como um rio negro se misturando com a escuridão do céu.
Com uma olhada rápida para trás viu sua cabana com uma pequena luz vermelha saindo de uma fresta. Com a escuridão, sua moradia era quase imperceptível.
Conforme andava pela trilha na mata, a luz de sua luminária presa na ponta do corpo da besta criava sombras que dançavam a cada movimento, criando deformidades vermelhas e amareladas nos troncos e folhas das árvores. O chão deixava de ser pedregoso a cada metro a dentro da mata, tornando-se um chão mais úmido junto da neblina leve que pairava no ar.
Samuel mantinha o dedo polegar em constante movimento que pressionavam a coronha de aço temperado adornado em madeira maciça, demonstrando a ansiedade que o acometia.
Ouviu vez ou outra um movimento na copa das árvores e no mato que crescia em volta das árvores que se fechavam na trilha. Sempre que ouvia algo levava a mão esquerda ao laço na cintura, se esforçando para continuar equilibrando a besta com o outro braço. Após atravessar o
riacho passou um tempo averiguando as bifurcações da trilha, até se reencontrar com o rastro que seguia.
Não demorou muito a perceber que já havia andado muito, a trilha se abriu em uma trilha maior, ele sabia que isso não era bom sinal, desde que esteve com Doralice,
sempre evitavam os caminhos abertos demais. “É por onde eles vagam.” Dizia ela. Para ele isso era algo distante, há muito tempo não tinham topado com um desconhecido,
e muito menos com os que ela descrevia. Mas agora as histórias que ela contava lhe pareciam mais próximas da realidade. “Você não se lembra, mas eu ainda sonho com o passado,
com as guerras, com o fogo, com a noite.”
As palavras de Doralice fugiram de sua mente quando ouviu o berro da ovelha vindo do morro abaixo, onde a vegetação se tornava mais densa.
Com um pouco de esforço e andando com o dorso arqueado para evitar os galhos e folhas baixas enquanto pisava firme no declive, se viu de frente a uma parede de pedras com musgo e madeira apodrecida.
“O que é isso?” Pensou enquanto removia a luminária da besta e a erguia ao alto da cabeça para ter uma visão melhor do que estava diante de si.
Dos dois lados que se olhava o paredão seguiu se perdendo na escuridão, com vegetação rasteira crescendo sobre ele, o que possivelmente foi o motivo de não ter visto de imediato.
Começou a seguir pela direita, onde havia uma trilha fácil em volta da pedra, e onde ele imaginou que o animal pudesse ter seguido.
Em pouco tempo viu uma abertura na pedra, do tamanho que chegava ao seu estômago e da largura que permitia a passagem com pouco esforço. Quando pressionou a mão na abertura para passar para o outro lado sentiu algo molhado na mão. Levou o dedo até o nariz e sentiu o cheiro. “Sangue?” Isso o alertou de imediato. “Talvez possa ter se ferido enquanto passava aqui, que droga! Não vou me acovardar estando tão perto.”
O que estava do outro lado do muro era uma masmorra que se erguia coberta pelas árvores que cresciam à sua volta cobrindo por inteiro, formando um grande telhado vivo.
Apesar da pouca iluminação que a luminária trazia naquele breu, pode-se ver que em volta da grande torre de pedra entulhos de madeira e ervas daninhas do tamanho de um homem cobriam completamente a edificação, o pátio principal nada mais era do que pedra sobre pedra.
Na torre, uma porta de madeira estava estatelada no chão, e ao olhar para ela, Samuel viu a ovelha.
Três homens em farrapos estavam sobre ela, se cobrindo com suas entranhas e se deliciando com sua carne. Lentamente um deles se virou para ele, e logo os demais.
Samuel ficou em choque por alguns segundos e quando perceberam sua presença, atirou contra um deles, que foi atingido por um dardo no pescoço e caiu se contorcendo em cima da ovelha morta.
Após o disparo, a besta foi posta no chão com um dos pés pressionado sobre o estribo e seu mecanismo de puxar a corda foi utilizado a toda pressa, girando e girando uma manivela pequena enquanto ele erguia a luminária a frente e acompanhava o movimento dos desconhecidos.
Quando o disparo atingiu um, os outros se assustaram, olhando o falecido no chão agonizando, o que deu tempo para mais um ser atingido, porém ao carregar o terceiro tiro, o último dos homens desapareceu. Com a besta armada, Samuel girou em torno de si iluminando a área como podia, e foi lentamente andando de costas até o buraco onde havia entrado.
Ao se aproximar do muro, viu pelo canto dos olhos o homem vindo em sua direção com um pedaço de osso pontiagudo, imediatamente se virou para disparar, acertando sua coxa, o que não foi o suficiente para pará-lo, que caiu sobre ele penetrando superficialmente a arma de osso em seu trapézio, que estava coberto apenas por um manto de lã negra.
Os dois caíram no chão e Samuel pôde ver em detalhes o rosto de seu agressor, um homem de cabelos sebosos e emaranhados, com uma
barba igualmente emaranhada. Seus olhos estavam enegrecidos de uma maneira não natural, com veias negras cobrindo a parte branca dos olhos.
Dos seus lábios uma baba viscosa e negra escorria pela barba, respingando nos olhos e boca de Samuel quando se chocaram no ataque. Enojado e desesperado, Samuel o empurrou e assumiu uma pose defensiva utilizando o punhal enquanto fitava o buraco e o inimigo que se encontrava do outro lado.
A luminária caída de lado no chão ainda desempenhava o seu papel crucial de iluminar o local, mas Samuel temia que isso não fosse durar, a banha dentro do cilindro inferior de ferro já estava escorrendo e logo iria encharcar a pequena tocha interior, e ele estaria na escuridão com alguém que teria vantagem nessa situação.
Samuel foi lentamente se aproximando da luminária enquanto o homem ia se aproximando paralelamente a ele, ambos girando em círculo, com apenas Samuel trocando olhar entre ele, a luminária e o buraco. O desconhecido estava tentando tirar o dardo da perna, e sempre que tentava, bufava e se retorcia de dor, mas sem nunca abaixar a adaga de osso.
Quando levou a mão até a alça da luminária, o homem avançou com a adaga em direção ao seu pescoço, instintivamente, Samuel puxou a luminária do chão e se defendeu usando o punhal que fez os dedos do homem caírem juntos da adaga no chão. Ele então segurou os tocos dos dedos e começou a gritar, fazendo pássaros nas copas das árvores que estavam adormecidos levantar voo.
O som do grito ecoou por toda a escuridão enquanto Samuel cortava a garganta do infeliz que sangrava um sangue negro que escorria pelo seu punhal. Ele não entendia como um sangue poderia ser negro como óleo, e então lembrou-se de uma das histórias de Doralice, sobre os olhos negros que se escondiam nos calabouços de Findemoir. “Eles estão lá meu amor, faz tanto tempo, mas eu me lembro de quando aconteceu, e todos fingiram que eles não existiam, permitindo seu sofrimento eterno.”
Novamente as histórias ganharam forma em sua mente, e o que lhe fazia dormir nas noites ao seu lado, agora lhe congelava a espinha.
Após a debandada das aves, ele começou a ouvir ossos estalando, pedras se movendo e murmúrios se lamentando vindos da escuridão à sua volta. Da grande porta onde jazia a ovelha um homem nu saiu vindo em sua direção com uma pedra em mãos, e logo outros começaram a emergir nas sombras.
Após pegar a besta no chão, Samuel disparou pelo buraco, que com o descuido do desespero, teve as vestes rasgadas pelas pedras pontiagudas, e o rosto machucado pelos galhos baixos próximos ao muro. Correu, correu e correu mata adentro, tentando não se perder na trilha, e sempre que podia olhava para trás, somente para ver um ou dois homens vindo em sua direção babando sangue negro.
Chegando no riacho, suas forças já estavam se esvaindo, e ele sentia o ombro queimar e coçar incontrolavelmente, e um combate foi inevitável a essa altura, o que mais queria era parar um pouco.
Quando um desconhecido com uma cota de malha gasta e esburacada avançou sobre ele, Samuel usou a besta e todo seu peso como uma marreta que desfigurou o rosto do homem e o estatelou no chão, caindo sobre si mesmo junto da besta, que com a força do golpe, foi junto. Imediatamente Samuel avançou sobre o outro que vinha de mãos nuas e desferiu uma estocada no estômago que foi seguida de mais outras igualmente violentas.
Quando o homem caiu, ele caiu sobre um dos joelhos, ofegante. Ao olhar para o ombro viu que a ferida estava negra e suas veias que iam até o pescoço e braço estavam se enegrecendo, ficando com a mesma aparência que sua vítima.
Um surto de adrenalina correu sobre seu peito e ele caiu em desespero puxando a ferida úmida e ardente com a mão que segurava a luminária, e com a faca tentou arrancar o sangue negro do machucado, mas o sangue vermelho escuro se misturava com o negro imediatamente ao ser removido.
Samuel não havia notado a aproximação de mais quatro homens, quando percebeu se assustou deixando a luminária cair rolando até o riacho, onde se encharcou e apagou-se, deixando-o na escuridão absoluta, onde não conseguia enxergar um palmo à sua frente.
Sabendo em qual direção ir, apenas correu deixando tudo para trás, correu tropeçando e chutando galhos, raízes e pedras, já não sabia onde estava indo, mas precisava correr. Sempre que diminuía o ritmo, sentia a respiração ofegante de um desconhecido se juntando a dele, e tudo o que conseguia pensar era em Doralice. “Não! Eu não quero me tornar um deles! Por Favor, meu amor, eu estou chegando, me ajude!” Sua visão se acostumou com o breu da floresta e sem perceber as árvores e suas copas começaram a ficar alaranjadas. “Está amanhecendo.” Pensou ele, logo a floresta recebeu leves feixes de luz tímidos que vinham de entre a copa.
Trilha adentro pelo menos três inimigos vinham em sua direção, mas quando saiu da mata fechada para uma área aberta, notou que eles pararam e ficaram apenas a olhar por entre as árvores, logo não eram três, mas cinco, depois sete, todos tinham algo incomum, nenhum deles vinha até ele em campo aberto. Quando se virou para frente, rumo ao horizonte, viu de longe sua casa entre as formações rochosas que iam subindo no declive rumo ao topo da pequena montanha, tão perfeita como era até ontem. Por um momento pôde se ver com Doralice lá dentro, guardando carne de ovelha dentro de um barril de banha, e cozinhando uma sopa cheirosa com ervas selvagens.
Começou a sentir a pele latejar por dentro, as veias pulsavam de forma que pareciam que iam estourar, e os olhos começaram a lacrimejar e logo sua visão foi ficando turva, ao olhar para trás viu que todos ainda continuavam lhe olhando, esperando até seu último suspiro. Sua carne do peito para cima estava esfolada e quanto mais próximo do ombro ferido, mais negra ia ficando. Perdendo o equilíbrio, caiu de joelhos na grama e sentiu o sol derretendo seu rosto, não entendia aquilo, mas sabia que estava morrendo, algo na sua cabeça se remexia fazendo latejar de dor, e antes de ficar completamente cego, continuou vislumbrando sua casa enquanto sentia seu corpo entrando em ruínas.
Capítulo Único
"Eles estão lá meu amor, faz tanto tempo, mas eu me lembro de quando aconteceu, e todos fingiram que eles não existiam, permitindo seu sofrimento eterno."
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Fim da Crônica